O desabafo de um gafanhoto

 O desabafo de um gafanhoto

Vim ter o que é meu!

Esta terra também é minha.

Não plantei, não fiz a monda nem a ramonda.

 

Te encaro como um igual no direito de me nutrir no que brota desse chão que deveras não tem dono.

 

Vida é vida.

Lida é lida.

 

Pragas somos todos que tiramos mais que colocamos.

Tu mais do que eu abusas da saúde da nossa mãe.

 

O que fizeste com os inúmeros dons que recebeste?

Os teus ninhos são mais duros que qualquer árvore.

Sem asas voas, sem barbatanas atravessas oceanos.

 

Mas tudo tem o seu custo.

Neste reino se paga pelo que se gasta.

 

Quanto já tomaste?

Fizeste da mãe um armário.

A mãe está doente.

 

Nós, como nos chamaste, somos inferiores, tu, como te gabas, és o superior, então sendo assim levanta-te acima do Evereste da tua ganância e arrogância.

 

Se podes ir à Marte, podes amar-te e amar a mãe.

A nossa casa, de onde nascemos sem pedir, mas temos que cumprir o pedido.

 

Retornar a mãe o do que dela retiramos.

E de cuidar dela, pois sem ela ficamos órfãos jogados na rua sem chão, sem ar, sem onde se sustentar.

 

As sonhadas e procuradas mães estão mais do que distantes.

A nossa está à nossa volta a chorar, a gritar e a sofrer. E ela está a mudar, mais e mais fortes tempestades e secas, frio e calor excessivos. O tempo urge pois salvar a nossa mãe é também salvar os nossos parentes, amigos e a nós mesmos. 

 

Engraçado, um superior sujar a única fonte de água que tem, pois sabe que algures no deserto se encontra um lago.

 

Eu, vivo pouco. Estou aqui para ter a minha parte e ir embora, mas antes de ir te digo:

A pintura na fotografia alheia, às vezes, é reflexo do que o pintor vê no seu próprio espelho.


 
 
 
 

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